sexta-feira, 7 de março de 2008

Projeto de Aceleração da Aprendizagem???????


Que comédia! Fui a uma escola de samambaia me apresentar para professor substituto no noturno, chegando lá animado para dar aula de EDF fiquei surpreso a ser informado que teria que atuar junto a uma turma do Projeto de Aceleração da Aprendizagem, que os professores (2) responsáveis pela turma iriam para o curso preparatório (aperte o play) do projeto.

Que bela parceria o gdf arrumou, uma televisão 2 professores e um bando de alunos que não falam em outra coisa a não ser no diploma e só. O material disponível traz modelos de aulas curtas para serem seguidos e o professor mesmo sem formação por exemplo em química, matemática, física atua do jeito que dá levando o conteúdo para os alunos.

Os colegas que estavam dividindo a turma afirmaram trabalhar algumas aulas de português, saúde e noções de Biologia.

Eu naquela situação inesperada, tendo que entrar em sala dentro de 15 minutos e com aquela bomba na mão tentei sugar ao máximo dos colegas que já estavam atuando para entender e tentar manter a turma interessada. Eles me aconselharam a manter sempre limites estreitos e ressaltar a importância da presença, de um tal relatório que será elaborado para avaliar o aluno, além de trabalhos em sala.

Como não domino outras disciplinas e em tão pouco tempo não teria como preparar uma aula nos moldes do projeto de aceleração. Decidi conhecer um pouco quem seriam meus alunos nessas 2 semanas, quais são as expectativas com o curso, idade, se trabalha, se tem filhos...

Ao longo da aula fomos nos conhecendo e vários assuntos surgindo a partir da realidade de vida dos alunos. Abri o jogo sobre minha realidade de vida e trabalho e a relação precária que fui colocado, sem rodeios coloquei que ainda pouco sabia como iria conduzir as aulas.

O perfil do grupo é bem homogêneo, a grande maioria tem entre 17 e 22 anos, vários trabalham ou fazem estágio e grande parte já tem filho. E a afirmação básica era de estão ali tentando conseguir o diploma o mais rápido possível para poder ter mais chances e trabalhar.

Uma das turmas do 2° ano se mobilizou e conseguiu com a direção a abertura de mais turma do ensino regular, que para os alunos que estão no segundo ano resultaria em mais um semestre apenas de aula. Infelizmente, na minha avaliação, ninguém se animou em voltar para o ensino regular, mesmo cientes que o projeto de aceleração de nada acelera e pouco vai ajudar na aquisição de conhecimentos ou na preparação para concurso, vestibulares.

Debates vários assuntos desde a industria do estágio, das péssimas condições de trabalho que eles tem, do peso dos filhos, da vontade de estudar... Uma das alunas trabalha no mcdonald’s, a partir de seu depoimento indaguei a turma sobre quantos deles comem no mcdonald’s, a maioria respondeu que não come. Os motivos foram variados: custo, gosto, não ter em samambaia, ser carne de cavalo, carne de laboratório,faz mal, preferir o giraffas...

Debatemos um pouco sobre de onde vem a comida, e de onde vem o grupo Mcdonald, quem ganha com a mcdonald’s em nosso país, o que esta por traz do modelo de consumo difundo pela lanchonete?

Ficaram muito curiosos em saber por que não comia no Mcdonald, após algumas expeculações coloquei minha posição de valorizar a forma de comer brasileira de entender que o trabalhador desse grupo é um dos mais explorados, e que não concordava com a forma de manipulação velada de nossa sociedade.

Bateu o intervalo e a galera já avisou, traz a carteirinha que nós vamos nessa! Um dos alunos estava alcoolizado.

Ao retornar deixei que eles pegassem as carteirinha e apenas uns 10 a 12 ficaram para 2° metade da aula. Perguntei a eles se eles teriam sugestões para as próximas aulas, sem sucesso. Perguntei dos espaços da escola, da quadra. Eles relataram que poderíamos usar a quadra, várias meninas já torceram a cara e disseram que não iriam, que não tem tênis, que chegam cansadas...

Propus que na próxima aula fossemos para a quadra brincar. Pedi que eles relatassem o que gostas de brincar, jogar e que tem haver com Educação física. Futebol, vôlei, peteca, 3 cortes, xadrez, damas, dominó, betes, pique esconde, pique cola...

Combinamos que na sexta iríamos brincar na quadra e que todos deveriam vir com trajes adequados de acordo com a disponibilidade. Eles relataram que não podem entrar na escola de bermuda.

Já com a pressão para acabar a aula e muitos ameaçando deixar a aula propus a brincadeira da dança da cadeira as avessas. Foi muito interessante, a turma se entregou e depois refletimos sobre a sociedade, preconceito, exclusão, maioria e minoria, quem tem direito e quem não tem, leis.

Duas alunas relataram não saber o que é a constituição. Outra relatou ter conseguido trocar sua geladeira com defeito 3 vezes, mas só depois de entrar em contato com o procon. Encerramos a aula pedindo para que eles reflitam sobre suas ações no dia a dia que não entreguem os pontos, lutem, batalhem e não reproduzam o que mais abominam.

Pena que essa galera vai serviu de estatística para um programa que não dará resultados reais, mas que irá beneficiar aqueles que farão propaganda e receberam os bônus desse pacote dito pedagógico.

2 comentários:

Izabella Andrade disse...

Ola meu nome é iabella e sou uma das alunas desse projeto que vc critica aqui no seu blog!
naum vim aqui mudar sua opniao a respeito do projeto mas vim relatar com a miha próprima experiencia que esse projeto realmente funciona e se há tantos alunos com defasagem de ensino obviamente e por que há erros no ensino regular afinal viemos dele nao é?!?!
entao olha antes de vc falar que vamos servir de "estatistica de um programa que nao dara certo" tenta pesquisar os resultados va em algum colegio e compare as notas do novo metodo de ensino com as notas do ensino regular! e mais uma coisa no projeto de aceleraçao nao existem so meninas com filhos pobres coitadas que nao tem dinheiro pra comprar um tenis ou que precisam trabalhar em Mc'donalds por nao terem condiçoes ou perspectiva de um futuro pois sou da classem media uma aluna de destaque e sou do projeto!
nao te culpo por ter essa imagem errada pois eu tambem tinha antes de "PESQUISAR" os resultados desse projeto em outros estadoa nos quais ele foi implantado e por ter dado resultado o governador arruda assinou com fundaçao roberto marinho!
e pra terminar...Por que o senhor nao reformula os seus conceito?

Cleide Soares disse...

Conheço outros dois professores que atuaram nas classes de aceleração em 2008: um professor efetivo (História) da Fundação Educacional e uma professora (Lingua Portuguesa)com contrato temporário. Os dois têm a mesma impressão que voce, Julio. Eles estão muito estarrecidos com o sistema educacional e em crise existencial acerca da função de professor.

De fato, esse método não funciona para a aprendizagem, mas somente para a diplomação. Com o diploma na mão o aluno entra numa faculdade particular facilmente, normalmente no curso de Pedagogia. E assim as estatísticas educacionais brasileiras seguem com números cada vez melhores e pessoas cada vez mais despreparadas. O nosso país, com esse método, aumenta a desigualdade social, pois serão as pessoas qualificadas e que estudaram em boas escolas, que fizeram o ensino regular, que vão assumir os postos importantes e terão melhores salários. A ciência também não avança no Brasil, como já confirmou estudos da UNESCO.

Os alunos fazem a defesa porque precisam vencer as etapas e pegarem o diploma. Assim o Brasil vai se desenvolvendo com pessoas sem base na formação.

Soube que mesmo que os alunos não tenham condições de aprovação têm que ser aprovados de qualquer jeito, porque não pode haver informação negativa no relatório. Os diários de classe foram preenchidos depois do período das aulas, porque as diretorias não tinham passado antes a necessidade.
Bem, os problemas são vários e esse método precisa ser submetido a debates e a consulta popular.

Cleide Soares - Brasilia/DF